Ya, Mr. Webb Ellis, one more upset in Brazil


Isso não é rugby. Não aquele que eu aprendi a gostar. O Rugby Football Union que o sr. William Webb Ellis, lendário ou não, começou a construir. Um esporte baseado em virtudes como o respeito às regras, tanto dentro como fora de campo. Regras que existam para serem respeitadas pelos atletas e aplicadas pelo árbitro, soberano.

Havendo quem discorde delas, o rugby tem outra virtude: elas são discutidas, podem mudar. Durante sua história – da pontuação do try no século xix às ELVs no XXI – , o rugby se reuniu, discutiu e mudou suas regras, se renovou e se adequou ao que o jogo pedia, para o bem dele. Regulamentos existem, e quando estabelecidos, são cumpridos. Se de benéficos passam a ser empecilhos para o próprio desenvolvimento do esporte, eles são discutidos, rediscutidos, e, se for o caso, são mudados; mas enquanto forem vigentes são respeitados, já que há hora para serem mudados.

O rugby também sempre mudou seus regulamentos: de amador, tornou-se profissional. Na Inglaterra, em Gales e na Escócia, até o final da década de 1960, não havia competições nacionais oficiais entre os clubes: jogavam-se amistosos. Era uma decisão ideológica, para preservar os ideais sublimes do esporte, que a competitividade exacerbada poderia prejudicar. Todavia, tempos novos pediam mudanças, e elas ocorreram, sendo discutidas e aplicadas no tempo certo.

Falei em ideais do esporte, não? Ideais, por exemplo, que são incompatíveis com desrespeitar árbitros, torcedores e colegas de esporte. Ameaçar, xingar e agredir decididamente estão fora dos preceitos do rugby. Todavia, há mais ideais que devem ser lembrados. O virtuoso rugby amador sabia perfeitamente que o esporte estava acima das vitórias e das rivalidades. O que estava em jogo não era uma taça ou uma premiação, tampouco o prestígio de ser ou não o melhor.

Mas jogar rugby, e tudo o que o envolva: treinar, se superar, crescer no esporte (o que não implica vencer nos resultados), entrar em campo, se doar, comfraternizar (não cultuamos o Terceiro Tempo?), fazer amigos e ter prazer com o que se faz. Será que passar por cima de regulamentos “em prol” da competição se encaixa no rugby? Apesar do nome “Rugby Football”, há aspectos que não precisam ser copiados do “football [association]”, especialmente aqueles que têm vivos representantes brasileiros que os praticam.

Deixemos os “tapetões” para os especialistas da CBF, Clube dos 13 e afins. Ou melhor, não, reprovemos e condenemos esses também, já que o que menos o Brasil precisa é do cultivo de certas mazelas que tanto o denigrem.

No entanto, há outro aspecto que deve ser levado em conta, antes da sumária condenação do “tapetão”: o que o motivou? Um regulamento ruim, não condizente com a realidade do rugby nacional. Contudo, ele foi aprovado, portanto, deve ser respeitado. Afinal, fazer regulamento não é cumprir com a burocracia pedida. É ter projeto, entender as necessidades e as demandas de uma realidade. A pratica do rugby organizado pede presença de um médico? Sim, ainda mais se isso foi acertado pelos participantes da competição.

Lembro que, como diretor do Rugby FFLCH, cheguei a reclamar sobre atendimento médico, contudo eu não estava com a razão no caso já que estive presente em reunião na qual a maioria decidiu que o atendimento deveria ser feito de uma maneira diferente daquele que eu concluí ser a melhor depois. Mas o que ficou decidido deveria continuar decidido, e numa oportunidade seguinte poderia ser modificado se assim fosse decidido. É para isso que existem reuniões e entidades responsáveis. Por isso o atual “tapetão” deve ser condenado, e por isso o futuro tem que ser melhor pensado.

Na verdade, entidades que cuidam e respondem por esportes existem para atender às reais necessidades do esporte. Será que um  esporte amador, com estruturas extremamente precárias, escassos praticantes, visibilidade nacional quase nula, e que, não obstante todas as suas barreiras, cresce acima das próprias expectativas (e muito acima do que muitos dos que o dirigem fazem para conseguir) deve continuar a punir financeiramente seus praticantes e agremiações? É isto condizente com a realidade do esporte? Estipular banir por 2 anos suas agremiações, aquelas que heróicamente, com esforços hercúleos de seus jogadores, seguem engrandecendo o nosso esporte é sábio? Se não for, por que estar estipulado no regulamento, documento tão sagrado para o bom funcionamento de uma atividade esportiva competitiva? Talvez fosse mais inteligente organizar campeonatos com antecedência, pensados com cuidado, bem divulgados, condizentes com as realidades dos participantes, com a melhor articulação possível entre entidade e clubes. Ademais, não seria mais correto os próprios interessados diretos – agremiações, por exemplo – cobrarem e ajudarem em tais tarefas?

Talvez fosse mais sábio olhar para a realidade do rugby brasileiro – quem sabe olhar para o Mapa do Rugby Brasileiro (clique no mapa do Brasil para acessar) e para o próprio censo feito há pouco tempo – e perceber que há equipes nascendo de uma hora para a outra, construídas por entusiastas que o que mais querem é ver o rugby crescer; olhar para eles, criar bases para que todos sejam integrados de fato no rugby brasileiro, que tenham competições para jogar, que possam fomentar o rugby em suas cidades, faculdades, escolas ou bairros, que possamos formar técnicos e árbitros sempre capacitados e em número para atender ás demandas – e não nego que muito disso vem sendo feito, uma vez que a entidade realizou o censo do rugby brasileiro, vem pensando o rugby feminino, como mostrou o HP em seus artigos sobre o assunto. Certamente esses são exemplos de que há muita gente pensando no rugby.

Em contrapartida, o que o episódio atual do Super 8 nos revela? Ou o do último campeonato paulista ? O que o episódio lamentável da falta de respeito com os jogadores da seleção brasileira durante as eliminatórias para a Copa nos revela, por exemplo?

É fato que as entidades que dirigem o rugby no Brasil são amadoras, no sentido clássico da palavra, isto é, são feitas por pessoas que, creio, nada têm a ganhar com o esporte senão a satisfação pessoal de contribuir com ele. Costumeiramente, inclusive, não passam de alguns jogadores e ex-jogadores que se juntam para organizar alguma competição. São entidades com recursos parquíssimos, sem condição de arcar com todas as necessidades do rugby, já que este é um esporte pouco conhecido em um país sem política esportiva decente e completamente voltado para o futebol, monoesportivo. Por isso mesmo precisa da ajuda daqueles que fazem o esporte e do diálogo constante com todas as partes. E sempre é preciso se atualizar com relação às necessidades, possibilidades e potencialidades do esporte. Buscar apoios, criar uma imagem boa, diferenciada. Ser uma opção positiva em meio ao caos que atola nosso país.

Nada disto que escrevi pretende ser uma verdade ou uma lição. Aliás, muito pelo contrário, talvez haja aqui uma ou outra besteira, equívoco ou até injustiça com alguma parte. São apenas pensamentos que me vieram ao ler pessoas que não tenho dúvida alguma entendem  muito sobre o rugby: Martoni, Rouget, HP, Tárcio, do Rugby Mania. Compartilhar pensamentos é bom, e muitas vezes pode ser útil.

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Uma resposta

  1. Muito bom o texto Victor!!
    Mas fiquei com uma dúvida: vc começou revoltado com alguma coisa, li o texto pensando que vc a explicaria e … Não encontrei! hahahaahahahah o que o motivou (ou melhor, revoltou)?

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