Falando de Sevens – Notas sobre a seleção de Sevens


Tenho acompanhado com alguma atenção, as notícias que se vão publicando nos blogs de rugby, sobre a seleção brasileira masculina sênior de sevens.

Na sua preparação para o Sul Americano de Janeiro, a seleção emitiu em 29 de Julho um comunicado sobre o “Programa de Recrutamento de Jogadores para a Seleção Nacional de Sevens” em que se solicitava aos treinadores das equipes para indicarem atletas a uma avaliação que deveria ocorrer em 29 de agosto.

Davam-se algumas indicações, das quais destaco a de ser pré-requisito para os jogadores a indicar, pertencerem à faixa etária dos nascidos entre 1991 e 1986, e de que o Grupo de Trabalho não deveria ultrapassar os 25 jogadores.

Não estou de acordo com este sistema, já que, na minha opinião, a escolha dos jogadores deve ser resultado direto da sua observação em competição, e não da sua indicação por terceiros. Mas, por outro lado, sempre é melhor ter um sistema, do que não ter sistema nenhum. Fiquei, portanto, curioso para saber o que iria acontecer.

E fiquei algo confuso com a lista de convocados para os trabalhos da seleção, agora divulgada, em que se registram apenas 16 nomes, dos quais somente sete pertencem ao escalão indicado. Sem querer pôr em questão a competência dos jogadores escolhidos ou indicados, outro fato me chamou a atenção: dos 16 convocados, 12 vem de São Paulo, e desses, nove pertencem ao mesmo clube. Isto parece-me estranho, já que, a cerca de cinco meses do Sul Americano, teria sido a altura ideal para chamar aos trabalhos um numero maior de jogadores, de diversas origens, que pudessem levar para os seus clubes o espírito, a dinâmica e os conhecimentos que os trabalhos de uma seleção nacional sempre fazem brotar.

Por outro lado, com os olhos postos no Sul Americano que se disputa anualmente, no Pan-Americano de 2011 e 2015, nos Mundiais de 2013 e 2017, e eventualmente nos Jogos Olímpicos de 2016, é tempo de abrir os olhos e ter este fabuloso conjunto de grandes competições em mente, para os próximos oito anos.

Não se pode pretender obter resultados de grande nível a trabalhar com 16 ou mesmo 25 jogadores, oriundos de três ou mesmo de seis clubes.

Concordo que para um treinador seja difícil trabalhar com um grupo maior. Mas a solução não está em manter reduzido o numero de jogadores. A solução está em ter mais treinadores…

Por outro lado verifico que dos 16 integrantes do Grupo de Trabalho, pelo menos oito estiveram envolvidos nos trabalhos da seleção brasileira de XV, que enfrentou recentemente a França. A percentagem não é alarmante, mas de qualquer forma há que ter em conta a necessidade de separar as duas seleções. Não vai ser fácil, no futuro, trabalhar com jogadores que tenham que cumprir os dois calendários.

Quero ainda deixar uma nota para a natureza da preparação da equipe Nacional. O rugby só se aprende, só se melhora como jogador ou como treinador ou como árbitro, jogando. É muito bonito essa coisa de grandes sessões teóricas, mas se os jogadores não jogarem, se não se testarem com freqüência, se não se puderem comparar a outros jogadores, a outras equipes, então meus amigos, percam as ilusões.

Há muitos anos, provavelmente a maior parte dos que lêem este post ainda não era nascida, tive um treinador que me disse, ao ver-me chegar ao campo e começar a minha preparação correndo ao redor do campo: “Isso (correr ao redor do campo) só é bom para correr ao redor do campo. Se queres jogar rugby toma lá uma bola e vai jogar.” Desde esse dia, como jogador ou como treinador, aprendi que nas sessões de treino de campo, um jogador de rugby deve ter uma bola nas mãos sempre que possível. E que toda a preparação física se pode fazer com bola.

Finalmente, sem pretender dar à informação nenhum outro valor que não seja o de informação, a seleção portuguesa de sevens envolveu nos seus trabalhos da época 2008/2009, 29 jogadores de sete clubes diferentes, dos quais 13 participaram também da seleção de XV. A equipe participou em 11 torneios internacionais, entre os quais um Campeonato da Europa, um Campeonato do Mundo e uns Jogos Mundiais. Não serve de exemplo – até porque por lá também tem muita coisa que não vai bem – mas dá uma idéia das exigências para se chegar a um nível médio.

Portugal chegou ao fim da época em 12º lugar no ranking da IRB. Para subir mais algum degrau, os meus compatriotas vão ter que trabalhar muito mais e melhor.

Portanto, para o Brasil ir a algum lugar nos sevens mundiais, vai ter que abrir a mente, olhar com humildade e determinação para a montanha de trabalho que está à sua espera e na concorrência feroz de, pelo menos, 90 seleções de outros tantos países, todas empenhadas em fazer bonito nas próximas competições internacionais.

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3 Respostas

  1. Concordo, HP

    Defendo que a seleção de sevens deve ser distinta da de XV, até porquê grande parte dos atributos para sevens é bastante distinta dos atributos necessários para XV, onde temos uma quantidade maior de jogadores especialistas.

    Também é questionável o critério de seleção, mas, como vc mencionou, melhor ter um critério, questionável ou não, do que não ter nenhum.

    Em minha modesta opinião, de quem iniciou no rugby nos idos de 1979/1980, defendo também que a seleção de sevens deve ser distinta da de XV – óbvio que isso talvez em um primeiro momento nos prejudicaria, pois temos valores fenomenais como o Portugal, que teriam que optar ou por sevens, ou por XV.

    Quanto aos clubes, para a frente concordo que o ideal é termos uma mistura mais heterogênea de clubes de origem, existem muitos ótimos valores para sevens que muitas vezes no XV não são tão bons assim – necessário privilegiar-se continuidade, velocidade, rapidez de decisão, habilidades de passe e altos reflexos – mas principalmente velocidade e resistência física, no sentido de velocidade de recuperação cardiovascular.
    De toda forma, é inquestionável hoje a alta qualidade física e técnica do pessoal do São José, admitamos que os garotos são muuuito bons mesmo e devem ser devidamente reconhecidos.

    No sevens, temos tackles não tão duros, rucks menos disputados e mais rápidos, e scrums igualmente mais rápidos e menos disputados – os árbitros são instruídos a paralizar menos o jogo e conceder o maior número de vantagens possível, etc.

    Conversando com excelentes profissionais envolvidos no rugby do qual tenho a sorte de ser próximo, uma idéia que ouvi e que concordo plenamente, é que a uniformização dos atributos do jogador de sevens deve ser enfatizada – jogadores com os mesmos atributos, em todas as posições – totalmente diferente do XV.

    Também defendo que devemos atrair valores de outros esportes que possuam esses atributos já desenvolvidos em escala de alto rendimento e que possam desenvolver as habilidades específicas do rugby.
    Um excelente exemplo é o Japinha, do SPAC, que veio do handebol em nível competitivo de alto rendimento, e rapidamente despontou em nosso esporte, para citar apenas um dos vários exemplos.

    Enfim…

    Estamos entrando em uma nova era do rugby, onde o sevens, que sempre teve um papel coadjuvante, hoje passa a ocupar um papel de destaque, movido principalmente pelo “sonho olímpico”.

    MAS DISCORDO DE QUEM DIZ QUE O XV ESTÁ ou deverá ser, ABANDONADO, ISSO É UM MEGA ABSURDO!!!! Se hoje está assim, é porque tem gente que não fez seu trabalho direito.

  2. De toda forma, lembremos que o Sevens, segundo o próprio IRB, é uma VARIAÇÃO do Rugby Union de XV.

    Ou seja, a ênfase não deve ser levada para o aproveitamento de uma situação momentânea, mas deve-se dar a continuidade e maior ênfase sempre no XV – com um XV bem feito e com ótima base, o Sevens também acaba por despontar, como conseqüência.

    Não façamos a estupidez da inversão de valores.

  3. Obrigado pelos seus comentários, mas não é o HP que escreve. É o Manuel Cabral.
    Quanto à questão da separação dos jogadores, é importante dizer que ela só deve ocorrer ao nível de seleções. Até porque, tradicionalmente, os sevens se jogam em fim ou principio de época. Todo o resto da época está guardado para os XV, exceção feita à seleção. Mas as seleções são sempre um caso à parte.
    Quanto a mim, os sevens a nível nacional, devem ser jogados em inicio de época, já que serviriam de motivação e captação de jogadores e público. Quem assistir a um torneio de sevens, estará naturalmente mais recetivo a ir assistir a um jogo de XV. E geralmente os jogadores mantém uma certa atividade física durante as férias, o que lhes permite mais rapidamente estar aptos a jogar sevens do que XV.
    Em certo sentido os sevens são um extraordinário meio de captar novos elementos, atrair novos patrocinadores e divulgar a modalidade. Até para as Tv’s, é mais fácil conseguir que elas venham transmitir uma final de um torneio de sevens – coisa para 21 minutos de antena – do que conseguir o mesmo para um jogo de XV. Os sevens são mais fáceis de explicar e de entender, oferecem um vencido e um vencedor em poucos minutos, não tem tempos mortos, nem fases muito confusas. E se você conseguir aqueles 21 minutos de tempo de antena, vai ver como é mais simples conseguir patrocinadores.
    Sou 100% contra a criação de um ambiente de crispação entre os sevens e o XV. Devemos olhar para as coisas como elas são e não acredito que – no presente – uns possam viver sem os outros.

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