Rúgbi luta para crescer e aparecer


Esporte é pouco difundido no Brasil, mas número de clubes aumenta e Olimpíada do Rio pode representar salto.

Ana Paula Garrido, do Estado de SP

Para mim uma das melhores matérias já feitas sobre o Rugby em jornais de grande circulação, didático e informando o atual cenário do esporte no país. Parabéns ao Estadão.

Faltam duas semanas para se conhecer o campeão do torneio das Seis Nações, que reúne as principais equipes de rúgbi. No resto do mundo, onde a modalidade alcança a terceira maior audiência esportiva, a expectativa de quem vencerá a final é grande e comum. No Brasil, apesar de soar estranho e ainda ser um esporte desconhecido pela maioria, acompanhar campeonatos de rúgbi não é tão raro assim. Ao menos três bares de São Paulo transmitem as principais disputas.

Alguns, em vez de passar ao vivo, preferem exibir reprises dos jogos. Mesmo assim conseguem um retorno considerável. Em média, 30 pessoas comparecem semanalmente aos pubs da capital. A maioria dos fãs pratica ou já jogou rúgbi. Segundo os proprietários dos bares, também apaixonados pelo esporte, a popularidade aumentou graças a maior divulgação do rúgbi, que desde 2003 faz parte da programação da ESPN.

Ainda confundido com o futebol americano, o rúgbi, na verdade surgiu antes, em 1823, enquanto o futebol foi criado em 1867. No Brasil, o próprio Charles Miller, criador do futebol tradicional, foi quem trouxe na bagagem uma bola extra, mais oval, fundando o primeiro time de rúgbi, o São Paulo Athletic Club (SPAC). No entanto, só agora o esporte começa a crescer, com reais chances de ascensão, até porque ele voltará a ser considerado modalidade olímpica, depois de 92 anos. A última vez foi em Paris, em 1924, e o retorno será em 2016, no Rio.

Nos últimos 3 anos, 56 novos clubes surgiram no País, quase dobrando o número de equipes – que passou de 60 para 116. Todas amadoras. Em vez de receber, o jogador paga para competir. No Bandeirantes, atual campeão brasileiro, a mensalidade é de R$ 90 – usada para manutenção do campo (em reforma, no momento), compra de equipamentos e para pagar treinadores e dirigentes. Os atletas também costumam dividir as despesas dos torneios, como inscrição e viagem. Mesmo assim, estão lá, nos três treinos semanais, todos à noite, pois durante o dia os jogadores precisam trabalhar. “Sempre tive outro emprego, mesmo agora como treinador. A remuneração é quase simbólica”, disse Gabriel Clauzet, técnico do time adulto, além de consultor ambiental.

TREINO É DUREZA

O treinamento parece mais uma preparação para guerra. Os atletas superam frio e, pior, campos mal conservados, com mais barro do que grama. “Infelizmente, isso mostra a realidade do rúgbi no País”, lamenta Felipe Barbosa, que também acumula funções: é vice-presidente do Bandeirantes e jogador, apesar de estar temporariamente afastado do campo, por uma pubalgia.

Apesar do constante contato físico durante o jogo, os atletas garantem que as lesões são raras. “Nunca me machuquei gravemente. O mais comum é lesionar o ombro, fora isso são desgastes comuns a qualquer esporte, como contusão muscular”, comentou o jogador de centro Fernando Portugal. Porém, não se pode descartar um preparo mínimo, com alimentação balanceada e muita musculação. “Não dá para ser atleta só de fim de semana, como no futebol. Precisa se preparar sempre”, disse Portugal, um dos poucos a “sobreviver” do esporte.

O porte físico, apesar de dissonante se comparado ao dos atletas profissionais, não representa obstáculo à prática do esporte. “Tem lugar para todo mundo, do troncudo ao magrinho, mais apto para correr”, explicou o auxiliar técnico do Bandeirantes, Martin Hittmair.

O que falta é investimento nas categorias de base. Enquanto nos países onde o rúgbi tem bastante presença, começa-se a treinar com 7 anos, no Brasil a idade inicial fica em torno dos 15 ou ainda mais tarde, na universidade. A diferença etária continua na hora de parar. Segundo os jogadores, lá fora um profissional atua até 30 anos – geralmente a fase do auge para os brasileiros. Como por enquanto não se pode abrir mão de atletas mais velhos, o que se tem feito, então, é investir na outra ponta.

O São José Rúgbi realiza um projeto com jovens, com apoio de patrocinadores. “É daí que vem nossos bons resultados. Crianças de 7 a 10 anos aprendem com mais facilidade”, afirma o presidente do clube, Ange Guimera. Em fevereiro, a equipe adulta ganhou o Circuito Seven, disputado com sete jogadores (leia nesta página).

Agora, será a vez do Bandeirantes investir nos mais novos. O clube da capital tem um projeto de inclusão social de jovens carentes. De acordo com o vice-presidente da Confederação Brasileira de Rúgbi (CBRu), Werner Grau Neto, o clube recebeu R$450 mil de verba para esse programa, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte. Ele ressaltou o papel social da modalidade. “No rúgbi você não vê jogador batendo boca com juiz. Há um respeito em campo, que influencia no seu comportamento”, observou. “Depois do jogo, parece um único time, em que todo mundo se reúne para comemorar”, completou Clauzet.

A iniciativa dos dois principais clubes nacionais indica uma evolução na estrutura do esporte. Apesar do resultado vir a longo prazo, hoje já se tem conquistas importantes. Ainda distante das primeiras posições no mundo -está em 29ª no ranking da Federação Internacional de Rúgbi (IRB), a seleção brasileira sobressai na América do Sul. “Hoje já somos a quarta força do continente, só atrás da Argentina, Chile e Uruguai”, comemora Werner.

RIVAIS SÃO EXEMPLO

Como a superioridade argentina é indiscutível, o jeito é se aproximar dos vizinhos do sul. O São José, por exemplo, acabou de “importar”” o Ignácio Ferreyra, que irá treinar o time adulto e formar futuros treinadores. Já o Bandeirantes tem apostado em intercâmbios. A equipe juvenil passa uma temporada com o time de Tucumã.

E vem mais investimentos, com a proximidade da Olimpíada do Rio. Os dirigentes da confederação se movimentam em busca de recursos. A seleção conseguiu seus primeiros patrocinadores: a Topper e a Cremer. Mas é difícil traçar meta para daqui 6 anos, até porque a IRB ainda não definiu a forma de classificação para os Jogos. A torcida é para que o País anfitrião, no caso o Brasil, tenha vaga garantida. “Acredito que a seleção possa ficar entre as oito primeiras”, opinou Fermin Padilla, sócio do All Black, um dos pubs que transmite os jogos.

Para isso, a modalidade tem crescido nos dois extremos: Nordeste e Sul. Segundo Werner, enquanto os times de Santa Catarina e Rio Grande do Sul contam com a vantagem de estarem perto dos argentinos, os nordestinos tem o biotipo ideal para a prática do rúgbi de sete. “Nesta categoria, vai melhor quem é esguio e veloz, tudo que o Nordeste tem”, analisou o vice-presidente da CBRu.

Por enquanto, contudo, a expansão territorial do rúgbi é apenas uma tendência. O foco de atletas está no eixo Rio-São Paulo. Somente as equipes do Bandeirantes e do São José reúnem 14 jogadores da seleção masculina, entre eles o capitão, Ramiro Mina.

Fonte: Estadão

3 Respostas

  1. MG também tá forte!

  2. Ótima matéria! Nosso é esporte está crescendo e ganhando espaço!

  3. Parabéns pela matéria sobre o rugby feita pelo jornal de grande aceitação da população, principalmente neste momento de reestruturação e com presença de vários núcleos de rugby fora do Estado de São Paulo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: